Entrevista Dr. Thiago Monaco – O Perigo da Importação de Médicos.

Um tema atual, uma preocupação nacional, um problema de gestão ou de falta de profissionais? Uma solução necessária ou mais uma lei tapa-buraco? Vejamos a opinião do Dr. Thiago Monaco, um profissional de renome internacional, referencia em vários países e em várias organizações internacionais. (veja o perfil do Dr. Thiago Monaco clicando aqui)

Esta é uma transcrição da entrevista do Dr. Thiago ao programa Caminhos de Sucesso, comandado por mim, no dia 28 de Junho.

Dr. Thiago Monaco

Dr. Thiago Monaco

Blog do Purcino:                  Nós precisamos importar médicos no Brasil?               

Dr. Thiago:                           Não!  Não acredito que precisemos. Embora nós ainda precisemos de mais médicos do que nós temos.

Alguns órgãos dizem que não, mas nós ainda precisamos de mais médico. Ainda assim, temos formado muito mais médicos ultimamente do que o próprio crescimento médio populacional.

O Brasil já está no caminho de suprir o país com mais médicos, lembrando que quando trazemos médicos do exterior e pensamos que eles ficarão por muito tempo aqui temos que considerar que não haja mercado de longo prazo.

Sabemos também que existem milhares de vagas no Brasil de difícil provimento o que realmente nos indica que milhões de pessoas estão carentes de atendimento médico decente, de qualidade.

Blog do Purcino:                  O Sr. falou da falta de atendimento de qualidade, vagas e necessidades. Para resolver isso não basta apenas trazer médicos do exterior e alocá-los nos mais remotos rincões do Brasil. É preciso de toda uma estrutura básica que sabemos não existe. Pelo que sei nosso governo não está montando esta estrutura, correto? 

Dr. Thiago:                             Não. Não está montando essa estrutura. E esta é uma das razões pela qual temos dificuldades de enviar médicos para fora dos grandes centros populacionais.

No código de ética médica que rege nossa profissão, uma das questões é que o médico não pode se submeter a uma condição de trabalho vil e degradante seja para o médico, seja para a população.

Então, independente da condição até mesmo salarial do médico, se ele vai para uma região que não tenha uma condição mínima adequada para exercer sua função, ele estaria cometendo uma falha ética. Muitos de nós, médicos, não vamos por causa disso. Não nos sentimos confortáveis em trabalhar com uma situação dessas.

Dr. Thiago Monaco e J. Purcino - Programa Caminhos de Sucesso

Dr. Thiago Monaco e J. Purcino – Programa Caminhos de Sucesso

 

Blog do Purcino:                 Existem parâmetros que a OMS determina para cada mil habitantes. Quais são esses parâmetros?

Dr. Thiago:                           Perfeita a pergunta. Muitas vezes, isso foi dito de forma distorcida por vários órgãos. (…) Muitos dizem que a OMS preconiza um médico para cada 1.000 habitantes. O Brasil já tem hoje dois médicos para cada 1.000 habitantes. Supostamente já teria o dobro do que o necessário, passando o problema a ser somente a distribuição.

Analisando a fonte da própria OMS, isso é falso. O que a OMS declara é que menos de um médico para cada 1.000 habitantes é uma situação crítica. Isso a gente acha nos documentos da OMS.

Quando analisamos os números mundiais, encontramos, com menos de um médico para cada 1.000 habitantes,  países como Serra Leoa, Camarões. Esses países se encontram realmente com uma situação de saúde muito grave. No último documento da OMS que fala sobre isso faz-se uma grande ressalva, ou seja, se menos de um médico para cada 1.000 habitantes é grave é muito complicado precisar o número ideal. E isso se deve a vários fatores:

O primeiro fator é a condição de saúde da população.

Uma população que tenha feito uma boa prevenção das doenças preveníveis, que tenha um bom nível de instrução, que tenha bom saneamento básico, com certeza teremos uma população menos doente. Portanto, essa população já necessita um pouco menos de médicos, pois ela já terá menos situações agudas.

O segundo fator é o próprio modelo de saúde.

Dependendo de como é feito o plano de saúde em cada país nós vamos precisar de um modelo diferente de serviço médico.

Dependendo de como seja a preparação, inserção e inter-relação entre as diversas especialidades, profissionais como nutricionistas, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas, enfim, todos os profissionais que lidam com a saúde também vão contribuir para a definição deste número.

Um país que se apoia demais na ultra especialização do médico acaba precisando de um número maior de pessoas porque se eu sou ultra especialista em uma determinada especialidade da medicina eu não terei outro profissional para atender outra necessidade.

Um país que faça realmente o que o SUS preconiza que é uma boa base de médicos generalistas, atuando na saúde primária, mais na prevenção do que no tratamento de doenças de maior complexidade precisaria de um número menor de médico por cada 1.000 habitantes.

O terceiro e último fator é a relação de trabalho.

O tamanho da jornada de trabalho de um profissional, que varia de um país para o outro muda. A longevidade do profissional na área médica também vai variar.

Ter um médico mais saudável, uma população mais saudável, lógico que vou precisar ter menos médicos por cada 1.000 habitantes.

Como podem ver, é extremamente complexo chegar ao número ideal. O Brasil tem praticamente dois médicos para cada 1.000 habitantes.

Blog do Purcino:                 E comparado com outros países, como estamos?

Dr. Thiago:                           O mais próximo e que tem uma boa qualidade de serviço médico com dois profissionais para cada 1.000 habitantes, como o Brasil, é o Japão. A grande maioria, porém, têm três médicos por cada 1.000 habitantes. Isso já é um indício que temos espaço para crescimento. Percebemos então que por um lado não existe um desemprego de médicos mas por outro lado existem milhares de vagas que não são preenchidas.

Blog do Purcino:                 Então onde está realmente o problema. Eu vejo uma centralização de médicos no estado de São Paulo, na região Sul, nas regiões mais ricas e uma falta de médicos nas regiões norte e nordeste do país e também norte e nordeste de nossos estados no sul. Tudo é muito centralizado nos grandes centros. Isso tem a ver com a oferta de formação dos médicos?

Dr. Thiago 8Dr. Thiago:                           De fato existem mais vagas de graduação em faculdades de medicina nas regiões mais desenvolvidas do que nas regiões economicamente menos desenvolvidas. Porém, eu quero chamar a atenção para um desvio muito maior. Existe um desvio muito mais desproporcional de ofertas de vagas de residência médica nos centros mais desenvolvidos o que também é um reflexo do desenvolvimento local porém é algo em que o governo poderia atuar com muito mais firmeza.

Para quem nos assiste, a vaga de residência médica é um curso depois da graduação, depois da formação em que o médico faz a sua especialização e a complementação de sua formação. Acho isso essencial, é necessário, apesar de só existirem vagas para cerca de 40% dos médicos formados no país.

Blog do Purcino:                 O médico entra na faculdade com que idade?

Dr. Thiago:                           Normalmente, entrando direto, logo após o curso normal, aos 18 anos de idade. Mas como é muito concorrido, provavelmente só entrará na faculdade dois anos após, ou seja, com aproximadamente 20 a 21 anos de idade. Ele irá fazer ainda dois a três anos de cursinho.

Blog do Purcino:                 Por isso a minha pergunta. Não é como nas outras profissões em que normalmente terminado o curso secundário já estão entrando na faculdade. A formação dele pode chegar até quantos anos?

Dr. Thiago:                            Para receber o diploma de médico são seis anos mais três a cinco anos de especialização.

Blog do Purcino:                 Começa com 21 anos, mais seis anos de estudo, forma-se com 27 anos de idade. Dai passa para a especialização, mais três anos na média, o primeiro emprego será aos 27 anos ou aos 30, 32 anos de idade?

Dr. Thiago:                           É um pouco mais complicado, pois a residência médica é tão complexa que ela demanda tempo integral. É um fato, o estudante vai começar a trabalhar de fato aos 32 anos de idade. Ele vive de bolsa até terminar a residência, concedida pelo governo, e o primeiro emprego, em geral, em torno dos 30 anos de idade.

J. Purcino

J. Purcino

Blog do Purcino:                 E se esses cursos estão localizados aonde, aqui nos nossos grandes centros econômicos isso significa que se pararmos para pensar um pouco os médicos ou as médicas já estará com sua vida feita quando terminarem seus estudos.  Refiro-me à vida amorosa, à residência, à estrutura familiar em si. Fica difícil então levar esse profissional para outros centros mais necessitados? Existindo a possibilidade de fazer a finalização dos estudos fora dos grandes centros, muito provavelmente a formação da família poderá ser feita nessas regiões. É um fato então que existe um problema de gestão. Onde está a dificuldade de mudar essa estrutura?

Dr. Thiago:                           É um problema de gestão. Em primeiro lugar eu acredito que se não dermos condições de trabalho para o profissional nas áreas necessárias a gente nunca vai resolver de vez os problemas e no máximo só existirão paliativos.

Eu já viajei por esse Brasil afora como médico ou com projetos de estudantes e posso afirmar que existem áreas que não oferecem a mínima condição de trabalho.

Não basta levar o médico, por mais capacitado que ele seja, para as áreas mais distantes, pois, frequentemente, serão necessários exames, não os mais complexos, mas exames de raios-X, eletrocardiogramas, por exemplo, onde não existem aparelhos em um raio de 100 quilômetros de distância. Estou falando de uma carência deste nível.

Se eu fosse um cozinheiro, estou dizendo que não tem panela nem fogão. É esse o nível que temos no interior do país. O profissional quando chega ele se apavora e se vê na situação de fazer uma medicina do século XVIII e vem embora, volta para o grande centro.

Não basta somente oferecer o salário. É necessária uma política de se oferecer condições mínimas de trabalho. É necessária uma política que vá levar uma medicina decente às populações mais carentes.

São Paulo, por exemplo, tem aproximadamente de quatro a cinco médicos por cada 1.000 habitantes. Portanto no Brasil ainda tem muito espaço para crescimento em número de médicos.

Blog do Purcino:                 Se nós temos tanto médico em São Paulo, por que falta tanto médico no SUS atendendo às populações mais carentes? Eu vi casos de pacientes que chegam às 6 horas da manhã para ser atendido e sai às 3 horas da manhã do dia seguinte e não foi atendido ainda? O que é isso? Por que isso? A publicidade mostra que tudo é muito bonito, já a realidade… Isso é problema do salário oferecido? Ou mais uma vez, problema de gestão?

Dr. Thiago:                            O problema é fundamentalmente de gestão. No fundo, aquilo que o governo economiza com alguns mal salários que existem de fato, ele perde com o prejuízo de um atendimento pior que o país leva para a sociedade. Outro fator é como o pagamento é feito. Por exemplo, dentro do salário combinado, no contra cheque, ou hoje do holerite, o salário de fato era correspondente a ¼ do valor a ser recebido no mês. O resto era gratificação. Ou seja, para aposentadoria, só valiam os valores correspondentes aquele ¼ do salário.

Blog do Purcino:                 Logo, considerando um fato como esse, considerando o baixo valor pago pelos planos de saúde, que é uma miséria em função do trabalho realizado, é claro que os médicos irão preferir trabalhar em seus consultórios médicos ou para hospitais particulares.

Dr. Thiago:                           Essas espertezas não são reais. Todo mundo sabe que essa é uma das questões que afetam a vida do médico no futuro. Na sua aposentadoria.

Blog do Purcino:                 Fala-se muito de trazer médicos bolivianos, cubanos, aqui para o Brasil para ocupar esses pontos mais distantes e onde os nossos médicos não estão indo trabalhar.  Esses médicos vêm para o Brasil e fazem sua residência aqui nos grandes centros. Outra vez o mesmo problema. Agora, e quanto à qualidade desses médicos que virão para o Brasil? Quais os cuidados que devem ser tomados?

Dr. Thiago:                           Existe um exame nacional de revalidação gerenciado pelo Conselho Federal de Medicina. Esta prova, que não é mais difícil que as provas que analisam a qualidade dos médicos formados aqui, 94% dos candidatos foram reprovados na última edição. É uma prova que aprova quem tem um conhecimento mínimo para ser médico no país.

Considerando isso, um médico que não é aprovado com o conhecimento mínimo, então ele não é aprovado para atender à nossa população.

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Blog do Purcino:                 O médico pode ser muito bom no seu país, mas para poder trabalhar aqui ele tem que passar por uma seleção como essa. Agora vem outra questão. Será que ele irá trabalhar nessas regiões mais distantes? Existe estrutura financeira para tudo isso?

Dr. Thiago:                           Talvez até tenha nesse nível. O que vimos foram ofertas boas, os médicos aceitam mais, pois eles trabalham e não recebem nem mesmo o primeiro salário. Agora, esse não é só o problema. A falta de estrutura é o ponto chave. Um bom profissional não trabalha só por dinheiro. Ele precisa de estrutura para exercer bem a sua profissão.

Logo, se estamos falando de levar bons médicos para os locais fora dos centros urbanos maiores e ele chegando lá se depara com falta de condições de trabalho, ele vai se demitir e voltar.

E se esse profissional for levar a sua família ele vai precisar de condições para fixar-se na área, como boas escolas para os filhos desses profissionais. Na ordem, o governo precisa criar condições de trabalho a um curto prazo, isso é uma urgência. A médio prazo, precisa criar condições para no mínimo levar um profissional e sua família para a região.

E para criar a rotatividade dos profissionais, é preciso uma politica salarial justa e uma gestão de trabalho adequada.

E reforço que o quanto mais próximo desta nova área de trabalho for a base do profissional, facilita a transferência. Então, todas as capitais dos estados, todos os grandes centros, deveriam oferecer condições de excelência.

Blog do Purcino:                 É uma boa para o estrangeiro fazer parte deste programa de importação de médicos?

Dr. Thiago:                             Eu não acho. Citando as palavras do Dr. Pastonaro, que comanda a ordem dos médicos de Portugal, essa proposta do Brasil é uma proposta análoga à escravidão. E ele está certo, pois o profissional estrangeiro, embora ele não seja submetido aos processos de revalidação do seu diploma, que volto a dizer é uma exigência da lei para proteger nossa população de garantia de que os médicos sejam bons. Supondo que façam o exame e passem, isso lhes dará a mesma prerrogativa que tem o médico brasileiro, que é a de escolher onde quer trabalhar. Escolher onde ele irá querer morar e viver. A proposta exime o estrangeiro da necessidade desta revalidação e fixa as áreas onde o estrangeiro irá trabalhar.

Uma vez que ela fixa a área e lá só existe a vaga que está sendo criada para ele a lei está fixando o salário. Em síntese, o que a lei diz é que o profissional estrangeiro vai trabalhar onde o país quer, pelas condições que ele quer e pelo valor que ele quer pagar. Ai está a analogia com o trabalho escravo. Caso o médico queira sair desta área, ele estará sendo convidado a sair do país.

Blog do Purcino:                 Se esse é o caso, nada melhor que pensar em uma melhora na gestão da saúde nesta área. O que o Sr. faria?

Dr. Thiago:                           Países como Canadá e Finlândia que enfrentam e sempre enfrentaram problemas para levar profissionais de saúde para as regiões nortes decidiram oferecer salários melhores do que os oferecidos para quem fica nas regiões do sul destes países. Oferecem jornadas de trabalho menores. Mais tempo para ficar com a família. Responsabilizam-se pelos custos da moradia, oferecem boas condições de escola para os filhos dos médicos. Eventualmente se esse médico se fixa na região a longo prazo, pagam o transporte para visitar a família de base nas cidades de onde eles saíram, uma vez ou duas vezes por ano.

Caso o profissional fique por um tempo determinado, ao retornar para o sul o governo ajuda o profissional a ser recolocado no mercado de trabalho.

Blog do Purcino:                 Isso não poderia ser feito no Brasil, levando o pessoal do Sul para o Norte e Nordeste?

Dr. Thiago:                              Isso poderia e deveria ser feito.

Blog do Purcino:                 Agora não adianta resolver tudo isso e não ter leito para atender à população de menor poder aquisitivo.

Dr. Thiago 8Dr. Thiago:                           Embora a gestão de saúde no Brasil não seja feita centralizada nos leitos oferecidos pelos hospitais, os postos de saúde ou as clinicas de baixa complexidades tem que chegar em todos os cantos do país. E mesmo tendo tudo isso, o médico precisa de uma garantia de que, em caso de necessidade, ele poderá levar o paciente até os locais onde ele poderá ser atendido em situações mais graves ou de risco.

Conheça mais detalhes das opiniões e dos comentários do Dr. Thiago Monaco assistindo aos vídeos da entrevista no site www.caminhosdesucesso.com.br

 

 

 

 

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